Quase metade dos habitantes do país não possui qualquer tipo de previdência ; a partir de 2035, teto da aposentadoria pública será de apenas três salários mínimos.
Em um país que envelhece no dobro da velocidade que foi observada nos Estados Unidos, esses dados são extremamente preocupantes, afirma o especialista em previdência Renato Follador. A origem do problema, segundo ele, é a conhecida falta de educação financeira e previdenciária do brasileiro, que leva à incapacidade de pensar e planejar o futuro. “O maior crime em relação à velhice das pessoas é não orientá-las sobre a necessidade de guardar dinheiro. Qualquer governo com visão estratégica deveria educar sua população para o futuro”, diz.
Diante do aumento da expectativa de vida dos brasileiros, o risco de faltar dinheiro para a aposentadoria por conta da falta planejamento é cada vez maior. Muitas pessoas ignoram essa possibilidade ao longo da vida e se veem obrigadas a continuar trabalhando, mesmo na velhice. Hoje, de cada três pessoas que se aposentam, duas permanecem no mercado de trabalho para poder manter o mesmo padrão de vida, afirma Follador.
Segundo o professor de Finanças da Universidade Federal do Paraná (UFPR), Pedro Picolli, a idade limite para aderir a um plano de previdência privada a tempo de garantir uma boa reserva para a aposentadoria é com 40 anos. A partir daí, a única solução é promover uma mudança no padrão de vida, diminuindo os gastos e aumentando os aportes mensais.
“Das três variáveis de um investimento – valor, tempo de investimento e remuneração –, o tempo é o que proporciona o melhor resultado. Entre poupar o dobro ou contribuir o dobro do tempo a segunda opção é sempre a mais recomendada, porque a regra dos juros compostos joga a favor de quem poupa mais tempo e não de quem poupa mais ou tem remuneração melhor”, explica Picolli.
De acordo com especialistas, a exemplo do que já ocorreu em outros países, o Instituto Nacional de Seguridade Social (INSS) vai ter muita dificuldade para manter o atual padrão de aposentadoria no Brasil e, em hipótese alguma, terá condições de melhorar a previdência social. De 20 salários mínimos na década de 1970, o teto da aposentadoria caiu para os atuais 6,1. “Daqui a oito anos, quem se aposentar com a atual política de aumento do salário mínimo terá direito a cinco salários mínimos. Em 2035, o teto cairá para três salários mínimos, o que deve corresponder a R$ 2.034”, projeta o especialista em previdência.
Rentabilidade depende de revisão anual
Não existe milagre quando se trata de investimento em previdência privada, dizem os especialistas. A lógica é clara: quanto maior o tempo de investimento, menor é o montante a ser aplicado. Por outro lado, quem tem pouco tempo para poupar precisa desembolsar mais. Mesmo quem já possui investimentos dessa natureza não deve descuidar, achando que o futuro está garantido. Esse é um erro que pode custar caro, afirma o superintendente comercial da seguradora Mongeral Aegon, Ednei Cesar de Andrade. Segundo ele, é importante que o investidor acompanhe de perto as mudanças e oscilações do mercado e faça uma revisão anual do seu plano de previdência privada. “Investidor com perfil estático tende a perder boas oportunidades, principalmente porque as modalidades de investimentos são bastante flexíveis e permitem trocas de planos para obter melhores rendimentos.”, diz Andrade. Há cerca de três anos, alguns planos de previdência privada projetavam rentabilidade de 10% a 12% ao ano. Hoje o cenário é outro e a rentabilidade oscila entre 6% e 7%, considerando a soma de aplicações em renda fixa e variável, como as ações da Bolsa de Valores, explica Andrade.
Opções
Diante desse cenário, a saída é pagar mais para manter a projeção futura de retirada do investimento ou diversificar as aplicações. “Existem bons produtos no mercado, mas é preciso pesquisar. Uma boa alternativa para investimento em aposentadoria é o Tesouro Direto”, afirma o professor de Finanças da UFPR, Pedro Piccoli. Segundo ele, os juros que o governo paga para títulos do governo são altos e vantajosos. Além disso, investidores com apetite para o risco não devem deixar de considerar o mercado de ações. A poupança, segundo Piccoli, não é um bom negócio. “A única vantagem da poupança é a questão da liquidez, que não importa muito em investimentos de longo prazo como para a aposentadoria”. Segundo Piccoli, o investidor deve ficar muito atento às taxas de administração e carregamento de alguns fundos de previdência. Em muitos casos esses custos são tão altos que comprometem a rentabilidade do investimento.
Sistema falido
Países optam por previdência privada compulsória
Em busca de saídas para incapacidade do seu sistema previdenciário, o Reino Unido vai obrigar os trabalhadores e empresas a contribuírem com a previdência privada. A obrigatoriedade começa a valer a partir de 2017 e é destinada aos trabalhadores com mais de 22 anos que tenham rendimentos de R$ 24.639 por ano. A contribuição será dividida entre o empregador (4%), trabalhador (3%) e governo (1%) por meio de isenção tributária.
A falência do sistema previdenciário é um processo natural em países que vivem a soma do desenvolvimento econômico e evolução demográfica. A diferença é que em países como a Alemanha, Estados Unidos, Japão e Holanda, que já venceram esta fase, a consciência de que é preciso guardar dinheiro para o futuro vai além da teoria, afirma o especialista em previdência Renato Follador, que se diz um defensor da compulsoriedade da previdência privada. “Quando a educação financeira e previdenciária é insuficiente para garantir a economia de dinheiro para o futuro, é preciso recorrer a outros mecanismos”,diz.
Precavido
Aposentado continua trabalhando e aposta em fundo privado
Aposentado pelo INSS com 85% do teto de R$ 4.157,05 da aposentadoria, o funcionário da Volvo Celso Castro Nieweglowski sabe que se fosse depender apenas do salário que recebe da previdência social, não conseguiria manter o padrão de vida que conquistou ao longo dos mais de 40 anos de trabalho. Ele é responsável pela área de pós-vendas da Volvo no Brasil e, aos 60 anos, está se aproximando da sua aposentadoria na multinacional. Além de um plano de previdência privada pago em conjunto com a empresa, há cinco anos Celso aderiu a um novo plano do Fundo Paraná, que ele planeja retirar quando completar 65 anos. “Essa preocupação veio de encontro a minha necessidade de ter uma aposentadoria tranquila e manter o mesmo padrão de vida”, diz Celso, que fez os cálculos e concluiu que vai precisar de 70% da sua renda atual para atingir esse objetivo. “Esse tipo de investimento rende mais do que aplicação na poupança ou renda fixa, mas é preciso ficar de olho nas taxas de carregamento e administração e na confiabilidade das empresas que oferecem esse serviço”, recomenda.
Disponível em: http://www.gazetadopovo.com.br/economia/conteudo.phtml?tl=1&id=1377577&tit=O-pais-dos-sem-previdencia. Acesso em: 31 mai. 2013.



